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Aula sobre lesões do Triathlon no Congresso da Academia Americana de Ortopedia (AAOS) 2018

No dia 10 de março eu fui convidada para dar uma aula no Congresso Americano de Ortopedia (AAOS) em New Orleans.

O tema que me pediram para falar foi: “Perspectiva da América do Sul: lesões no triathlon.”

Na aula contei um pouco da história do triathlon que é um esporte relativamente novo e tem suas raizes na França em 1920 com uma prova sem paradas de corrida/ciclismo e natação chamada “Le trois sports”.

Pela primeira vez chamado de triathlon  com natação/ciclismo/corrida foi uma prova que aconteceu no dia 25 de setembro de 1974 em Mission Bay, San Diego, California. Essa é a dta considerada o aniversário do triathlon moderno. Havia 46 pessoas para completar um evento multiesportivo que consistiu em 500 yard de natação,  5 milhas de ciclismoe e 6 milhas de corrida.

O Ironman nasceu em 1978 como uma forma de desafiar atletas que tiveram sucesso em natação de resistência e eventos de corrida. Judy e John Collins, um casal da Marinha, com base em Honolulu, propuseram combinar as três corridas de resistência mais duras em Hawaii:  2.4  milhas Waikiki Roughwater Swim, 112 milhas da Around-O’ahu Bike Race e  26,2 milhas da  Marathon Honolulu em um evento. Em 18 de fevereiro de 1978 , quinze pessoas competem com o primeiro IRONMAN.

No início de 1982  a emissora ABC  transmitiu o IRONMAN e havia aproximadamente  600 atletas competindo. Esse número aumentou para mais de 2000 em 2018 , quando esta corrida irá comemora o 40º aniversário.

A União Internacional de Triatlo (ITU) foi fundada em 1989  como órgão governamental internacional do esporte e fez sua estréia no programa olímpico nos Jogos de Sydney em 2000 na distância olímpica.

Associada à tendência da consciência da saúde e bem estar, o triatlo estabeleceu-se como um esporte para massas. Há poucos trabalhos sobre esse esporte especificamente. No entanto, é o único esporte onde os profissionais e os amadores competem na mesma prova, não importando a distância dela.
Na literatura sabe-se que o principal fator de risco para lesão no triatlo não profissional é a participação em um evento de triatlo competitivo.

Foi muito interessante falar dessas lesões para uma platéia de ortopedistas do mundo todo uma vez que isso é o que atendo diariamente no meu consultório, além do fato de eu também ser uma triathleta amadora.

É muito importante observar que o triathlon é um esporte não três. Assim, quando o cirurgião ortopedista vê as lesões, ele deve entender todas as demandas dessa atividade física para entender a causa da lesão e fazer o tratamento na direção certa.

As lesões por uso excessivo representam a maior porcentagem de lesões relacionadas ao esporte que exigem tratamento médico. Os hábitos de treinamento são extremamente variáveis e não diretamente relacionados à incidência ou ao tipo de lesão.

As lesões de “overuse” são a causa relatada em 41% das lesões e  2/3 delas ocorrem durante a corrida. Os locais mais freqüentemente afetados são o tornozelo / pé, coxa, perna. A incidência de lesão não está relacionada com a quantidade média de treinamento ou competição semanal, intensidade ou freqüência de treinamento.

As lesões dependem da fadiga muscular e isso diminui o desempenho e induz o atleta a treinar mais para aumentar o desempenho e, por sua vez, causa ainda mais fadiga. O treinamento de força associado ao treinamento de resistência dentro da especificidade da distância e do tipo de atleta é a chave para prevenir lesões.

Dra. Kelly Cristina Stéfani

Médica ortopedista e triathleta amadora

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COMO ESCOLHER UM TÊNIS DE CORRIDA – NÃO EXISTE RECEITA DE BOLO

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Assisti o  vídeo do Gustavo Maia de 19-01-2107 com o tema: Tênis para tipos de pisada e drop de tênis (uma opinião). Tênis para tipos de pisada e drop de tênis (uma opinião).

Ele deu a opinião dele como corredor e jornalista que conversou com vários profissionais. Um dos profissionais que ele conversou foi comigo.

Vamos falar agora de como escolher um tênis de corrida do ponto de vista de uma ortopedista especialista em pé e tornozelo / medicina esportiva e  triathleta.

Em primeiro lugar você precisa de uma avaliação de um ortopedista de sua confiança para entender quais suas características anatômicas e biomecânicas que irão influenciar na decisão final.

Não existe uma “receita de bolo” e sim a individualidade e especificidade.

O apelo da mídia e as estratégias de marketing são armadilhas comuns atualmente, então é importante que você tenha análise crítica nas leituras nas diversas formas de comunicação atual.

Muitas marcas simplesmente fazem seus tênis na China baseados apenas em design e colocam suas marcas e apostam em estratégias agressivas de marketing. Outras marcas investem em pesquisa e realmente utilizam materiais de qualidade na confecção de seus calçados. O seu ortopedista saberá indicar e te orientar nesse quesito. Hoje existe uma revista cientifica especializada em calçados, onde as conclusões são baseadas em testes biomecânicos adequados e não em “achismos”.

Já li várias matérias na internet e até livros que citam publicações científicas com interpretação errônea. Muito cuidado com o que você lê e acredita!!! Outro aspecto é olhar de forma critica para as publicações científicas. Eu sou orientadora de teses de mestrado e doutorado na área de pé e tornozelo e editora de uma Revista Científica especializada em pé e tornozelo e entendo que trabalhos científicos são para a comunidade científica e não para leigos. Simplesmente porque a comuniddade leiga não tem informações técnicas para interpretar o que o trabalho está dizendo ou até mesmo avaliar a qualidade técnica daquele trabalho científico. Outro fator importante é que um trabalho científico publicado não significa que é uma verdade absoluta!!! Primeiro os trabalhos devem ser metodologicamente estruturados, senão as afirmações finais podem não ser verdadeiras. Segundo, eles têm que ter aplicabilidade prática e não ser apenas teóricos e funcionarem em laboratório. Portanto, o ortopedista especialista em pé e tornozelo que trabalhe com atletas tem as informações técnicas para interpretar esses trabalhos e “traduzir” para a linguagem leiga a importância e o significado desses trabalhos para o paciente em questão.

Cuidado com lojas especializadas em tênis, pois o vendedor não é qualificado para indicar o tênis adequado para você. Por exemplo, os comuns testes de baropodometria estática não tem nenhum significado técnico para escolha do tênis e uma esteira na loja para você correr não necessariamente irá ajudar na escolha. A avaliação do gesto esportivo deve ser feita por um profissional qualificado e é associada a outros critérios.

Mas algumas dicas são úteis:

  1. NÃO EXISTE RECEITA DE BOLO!!! INDIVIDUALIDADE É A PALAVRA CHAVE!!!
  2. Cada corredor tem uma pisada: neutra, supinada ou pronada. Isso se assemelha a cada pessoa ter uma cor de cabelo: preto, loiro e vermelho. Ou seja, são características individuais. Falar que o tênis neutro é melhor é a mesma coisa que mandar todos loiros e ruivos tingirem o cabelo de preto é que normal!!! Não tem sentido!!!
  3. TÊNIS NEUTRO NÃO GERA MENOS OU MAIS LESÃO!!!!
  4. O tipo de pisada (determinado pelo ortopedista) é importante, mas coadjuvante na escolha, a biomecânica da corrida é mais importante. Na dúvida opte pelo tênis de pisada neutra.
  5. O gesto esportivo: aterrisagem com o retropé ou com o mediopé são características pessoais e estão correlacionadas com peso, altura, idade, potência de massa muscular, nível de treinamento, memória muscular (desde quando você pratica atividade física???). O gesto pode ser treinado e aprimorado, sem dúvida, com ajuda de um educador físico e ou fisioterapeuta, entretanto um corredor adulto modificar a aterrisagem de retropé para mediopé e extremamente improvável.
  6. Escolher o tipo de amortecimento: corredores mais pesados, com menor potência muscular e com aterrisagem no retropé necessitam de maior amortecimento e não se beneficiam de tênis leves e minimalistas. Em contra partida os corredores mais rápidos são os que têm menor gasto energético para executar a passada e têm gesto esportivo melhor. Esses corredores podem ser candidatos a utilizarem tênis minimalistas.
  7. O drop do tênis não deve ser elevado, pois senão é como correr de “salto alto”. Os corredores que aterrissam com o retropé precisam de um drop maior os que aterrissam com o médio pé nem tanto.
  8. O tênis deve ser flexível, mas estruturado para proteger e dar estabilidade para o pé e tornozelo.
  9. Correr descalço é válido para quem anda o dia todo descalço, caso contrário não faz sentido
  10. Sempre consulte seu ortopedista de confiança especialista em pé e tornozelo pois ele é o profissional mais qualificado para te auxiliar na escolha do melhor tênis baseado em suas características individuais.

 

Bons treinos, sem lesões!!!

Dra.Kelly Cristina Stéfani

Ortopedista especialista em pé e tornozelo/medicina esportiva

Triatheta amadora na distância Ironman