A polêmica do 23 Triathlon Internacional de Santos


Acompanho de perto provas de triathlon desde 2006 quando comecei a praticar esse esporte.

Hoje presenciei uma das cenas mais grotescas no 23 Triathlon Internacional de Santos.

Vamos aos fatos!!! A largada estava marcada para as 7:30 inciando com profissional, entretanto as bóias de marcação da natação não haviam ainda sido posicionadas por dificuldades técnicas devido às condições climáticas ou falta de competência técnica da equipe que coloca as bóias. Não posso afirmar…entretanto o fato é que seja lá o que foi que aconteceu era obrigação da organização da prova tomar uma atitude até, no máximo, às 7:00hs (antes da primeira largada que seria às 7:30hs).

De acordo com o regulamento da prova quando não há condições de natação do mar devido a fatores climáticos o triathlon olímpico (1500m de natação, 40km de ciclismo e 10k de corrida) é transformado em duathlon com 10km de corrida, 40km de ciclismo e 5km de corrida.

Essa decisão deve ser tomada antes do início da prova por respeito: aos atletas e à Prefeitura da cidade sede do evento pois há um compromisso de horário de desobstrução das vias de tráfego de carros.

A prova precisa de parceria com a Prefeitura, CET, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. Todas essas autoridades estão envolvidas para possibilitar a execução do evento.

E a presença do atleta ,sem dúvida nenhuma, é o que faz o evento acontecer. Os atletas se inscrevem na prova e pagam por toda essa logística complexa de uma prova desse porte. E esse tipo de prova tem um custo alto.

O que vimos hoje foi uma sucessão de decisões pautadas na falta completa de profissionalismo de todas as esferas da prova.

As bóias de marcação da natação não estavam no local na hora da largada e ao invés de uma decisão de transformar a prova em duathlon ser prontamente tomada, aguardou-se até as 8:20hs para a primeira largada com as bóias posicionadas num trajeto inferior ao da prova de 1500m viraram 1000m. A partir dai os resultados não podem mais serem comparados pois mudou-se a distância da prova, a descaracterizando e fazendo-a perder seu real valor.

As largadas iniciaram-se às 8:20hs na sequência:

1. Profissional feminino e masculino

2. Categoria masculino 15 a 24 anos anos, militar e acima de 50 anos e atletas com deficiência física (feminino e masculino)

3. Feminino

4. Categoria masculino 24-29 anos e categoria masculino 45-49

Na quinta largada que seria 30-34 tudo parou e na praia, sem saber o que acontecia, os atletas masculinos das categorias 30-34, 35-39,40-44 e revezamento esperavam!!!

O mar tinha ondas para entrar e algumas mulheres não largaram por receio das ondas e outras largaram e não conseguiram atravessar a rebentação.

Ao invés de atitudes profissionais o que se viu foram atitudes totalmente passionais. Devido a essas mulheres que ficaram na rebentação e se desesperarem o que pode-se ver foi desespero das equipes envolvidas também. Ao invés de tirarem essas mulheres do local e continuarem as largadas iniciou-se uma discussão entre Corpo de Bombeiros e Organização da Prova. O primeiro queria cancelar as largadas posteriores e o segundo manter as largadas.

Indubitavelmente a autoridade máxima de segurança do local é a Polícia Militar representada pelos salva-vidas do Corpo de Bombeiros. Essa autoridade não se discute e não cabe a organização da prova questioná-la.

Entretanto fica um questionamento em relação ao Corpo de Bombeiros. Porque as largada foi autorizada e 20min depois mudou-se o posicionamento? Porque houve tanto pânico na largada feminina onde mulheres simplesmente não conseguiram passar a arrebentação que havia sido passada pelo profissional, categoria masculino 15-24, 25-29, 45-49 e acima de 50, além dos militares. O clima mudou tão bruscamente em 20 minutos? A resposta de quem presenciou tudo é NÃO!!! O clima e o mar não mudaram.

Após muita discussão passional as largadas subsequentes foram canceladas. Independentemente onde os erros foram cometidos o Corpo de Bombeiros tem essa autoridade sim.

Ao invés do regulamento ser seguido a organização da prova se equivocou mais uma vez numa solução bastante “peculiar”!!! Todos os atletas da categoria 30-34 correram pela praia 100m em direção a área de transição. O que se viu??? Foi um estouro de boiada (essa é a categoria mais numerosa) todos em direção a área de transição debaixo de uma chuva torrencial. Pelotões e mais pelotões se formaram numa prova onde o vácuo é proibido.

A largada foi completamente desordenada até o final.

E a confusão foi mais complexa ainda. Enquanto havia a discussão na praia com as categorias 30-34, 35-39, 41-44 paradas na areia. Na área de transição nesse mesmo momento a organização cometeu outra arbitrariedade. Simplesmente parou as mulheres na área de transição para esperar outras mulheres que não largaram e portanto não nadaram para fazer uma outra largada. Segundo a regra quem não nadou está desclassificado!!! E o que parecia que não podia piorar de arbitrariedade aconteceu….aproximadamente 4 mulheres que saíram da água na frente e já estavam pedalando tiveram que voltar para a área de transição sem sequer entender o que acontecia. E no final da prova ainda forma penalizadas com 6 pontos pois não voltaram prontamente ?!?!

Sou apaixonada por esportes, em especial o que eu pratico, o triathlon. Mas o que seu viu hoje foi uma desorganização, falta de profissionalismo, falta de comprometimento, falta de bom senso de todas as esferas: a Organização da Prova, o Corpo de Bombeiros, a Prefeitura de Santos.

Quando a Prefeitura autoriza essa prova ela tem que fiscalizar sua execução e devem haver regras. Quando o Corpo de Bombeiros está presente como autoridade tem que ser respeitado sim mas tem que ser ágil e profissional em avaliar a presença ou não de perigo do mar de forma técnica e não passional.

E os atletas também têm sua parcela de responsabilidade, tendo conhecimento das regras e exigindo que elas sejam cumpridas. Caso contrário não largar na prova e exigir o dinheiro de volta!!! Como atleta entendo o que é treinar e se preparar para uma prova, mas não podemos ser coniventes com essa completa falta de profissionalismo dos organizadores.

Hoje todos postam reclamações nas redes sociais mas amanhã todos se inscrevem novamente para a mesma prova.

Providências devem ser tomadas. Essa é uma belíssima e importante prova de Triathlon Olímpico do calendário nacional. Ela não deve acabar, mas mudanças precisam existir.

O profissionalismo e o comprometimento tem que ser de TODOS os envolvidos.

Vamos parar de lamentar nossas dificuldades culturais e enaltecer os países estrangeiros. Ao invés disso vamos aprender com eles. As organizações de provas nos EUA, Europa e Austrália são impecáveis. Essa logística já existe, porque não aproveitá-la?!?!

Como médica cada vez mais acredito em anjos da guarda…que trabalharam hoje muito!!! Atletas desprerarados tentando entrar num mar difícil, mas possível, se deseperaram…pelotões a mais pelotões pedalaram debaixo de chuva e com um asfalto escorregadio e perigoso. Nenhum acidente grave foi relatado…mas tinha todos os ingredientes para acontecer!!!!

Never quit…não é apenas para terminar treinos ou provas duras….nerver quit é porque acredito no meu país e que nossa cultura pode ser modificada e melhorada pelas nossas próprias mãos!!!

 

Dra.Kelly Cristina Stéfani

Ortopedista e Triatleta