Existe prazer na atividade física?

O equilíbrio entre motivação, disciplina e atividade física sempre foi problema complexo em todos os níveis de prática esportiva. Se por um lado, na prática voltada para o bem estar e a saúde os grandes desafios são a regularidade nas atividades, a organização da vida diária e a mudança de hábitos, no esporte competitivo muitos atletas também encontram dificuldades em atender as demandas de intensidade e nível do treinamento, exigidos para grandes resultados.

Diante destas dificuldades, um dos grandes desafios dos profissionais que promovem a prática da atividade física e do esporte é conseguir motivar seus alunos e atletas a iniciarem a prática, se manterem no programa de forma disciplinada e procurarem evoluir. O problema é que muitas vezes este processo começa pelo como e não pelo porque, isto é, muitas vezes existe a busca por métodos, incentivos, atividades e promoções, sem que exista primeiro a preocupação em entender o que realmente motiva o aluno a iniciar e se manter na atividade física. Com isso muitas vezes os programas terminam em fracasso, algumas vezes eles tem êxito em encontrar o motivador, e em outras tantas eles atingem o objetivo, mas completamente por acaso, “esbarrando” na motivação durante a tentativa de atingir outro ponto. Entendo que para um programa de academia, onde a individualização é prejudicada pelo volume de alunos, a tarefa é mais difícil. Principalmente porque ela fica mais a cargo do profissional de marketing do que do psicólogo do esporte. Mas em um trabalho individualizado é fundamental que exista uma boa e sincera reflexão e anamnese com o aluno, para que o foco do trabalho esteja realmente direcionado as suas necessidades.

Digo anamnese sincera, pois muitas vezes é difícil para o aluno/atleta reconhecer os reais motivos que o atraem ou atraíram para a atividade física. É muito bonito dizer que pratica um esporte por superação pessoal, busca pelos limites, saúde, estilo de vida e prazer na atividade, mas muitas pessoas acham “menos nobre”, dizer que praticam pela auto estima, pela vaidade, pelo reconhecimento de seus pares, para se identificar com um grupo, pelo contato social ou por questões estéticas. E muitas vezes isto acontece mesmo sem que o próprio praticante reconheça esta causa. Por este motivo, quando trabalho com motivação, costumo não pedir aos atletas para que me digam o que os motiva na atividade ou qual sua motivação, mas peço para que me contem sobre suas experiências positivas com a atividade física ou com o esporte, quando se sentiam bem, quando percebiam que estavam felizes, o que mais gerava expectativas positivas quando pensavam em ir para a atividade física? Através destas descrições , sem a preocupação em dizer o que seria certo ou errado, as próprias situações já começam a indicar o caminho da motivação, neste momento discurso e ação deixam de entrar em conflito e um programa mais voltado às necessidades e desejos do aluno pode ser desenvolvido.

Não adianta individualizar e isolar demais o aluno se o que o atrai é o contato social na atividade, não adianta trancar dentro de uma sala alguém que é atraído pelo ar livre, não interessa para alguém motivado pela comparação externa mostrar apenas o desenvolvimento individual, e por aí vai… O que temos que entender é que cada sujeito, praticante ou atleta tem uma motivação individual, que não é certa nem errada, pode ser intrínseca, extrínseca e na maioria das vezes é mista. E quando aprendemos a identificar isso em cada um e mostrar que a atividade física pode atender às necessidades de todos, trazer prazer e mesmo que não seja o foco, realização pessoal e saúde, estaremos atraindo mais um praticante para este mundo. Diz o ditado sobre o trabalho: “Trabalhe com aquilo que ama e não terá de “trabalhar” um dia sequer na vida”, com a atividade física e sua disciplina isso funciona da mesma forma, faça aquilo que te dá prazer e nunca terá que se “esforçar” para fazer atividade física.

Arthur Ferraz

Psicólogo Esportivo

aferraz@institutokellystefani.com.br