Fatores Multidisciplinares

Aproveitando a oportunidade de apresentar uma das diversas oportunidades do trabalho multidisciplinar, realizado dentro do consultório, resolvi aproveitar o texto recentemente escrito pela Fernanda Palma, nutricionista, e publicado neste site, sobre transtornos alimentares e a magreza excessiva, para apresentar um pouco do enfoque psicológico aplicado a este tipo de caso.

Muitos dos estudos sobre os transtornos alimentares buscam compreender os mecanismos de instalação e os fatores de risco associados, tentando encontrar uma relação causal direta, ou no caso dos estudos de prevalência, tentando avaliar a probabilidade de determinados grupos, idades, gêneros ou modalidades esportivas em desenvolver tais comportamentos.

A importância de tais estudos é a de se compreender o processo de instalação dos transtornos, na tentativa de identificar processos importantes, antes que eles se instalem, além de proporcionar o desenvolvimento de programas de prevenção mais específicos e efetivos, para grupos de maior risco.

Mas uma questão importante no trabalho com os transtornos alimentares é o trabalho direto com quem sofre diretamente com o problema, identificando e trabalhando não mais os fatores que o levaram a desenvolver o problema, mas os reflexos deste em sua vida. Não adianta apenas entender que um alto grau de perfeccionismo pode ser fator de risco, se não pudermos ajudar o sujeito a compreender por que e para quem ele tem de ser perfeito sempre? Por que os erros e defeitos não podem ser tolerados? E por que a realidade de que é impossível ser perfeito sempre não pode ser aceita e usada para melhorar a relação dele, com as exigências, internas e externas, da vida?

O processo psicológico passa então a ser um acompanhamento do sujeito em suas relações diretas com a vida e sua realidade (decisões, escolhas, limites e conquistas), desenvolvendo a capacidade de compreensão sobre os fatores envolvidos nos processos de percepção da imagem corporal, intransigência, perfeccionismo, falta de controle e outros possíveis fatores de risco associados, assim como ajudando-os a lidar com os sentimentos de culpa, vergonha, medo, autoestima e incapacidade que aparecem como reflexo do problema.

A questão aqui passa a ser não somente trabalhar a causa do problema, o que o levou a se desenvolver, ou os sinais ou sintomas presentes no transtorno instalado, mas em compreender que o transtorno alimentar é um problema amplo que envolve diversos fatores, pertinentes a diversas áreas da saúde. Dentro da psicologia ele deve ser compreendido como resultado de uma série de conceitos e comportamentos disfuncionais, mas também como causador de outros tantos, que levam a reações emocionais negativas, que dificultam ainda mais o esforço de superação do problema. E este esforço não é realizado sozinho. Nesta luta médicos, psicólogos e nutricionistas precisam estar alinhados, fazendo com que a rede de apoio para quem sofre com os transtornos seja ampla, e os fatores clínicos, alimentares e psicológicos possam ter uma atenção específica, entre profissionais que se comuniquem, falem a mesma língua e estejam dispostos a juntar esforços neste contexto tão complexo.

Arthur Marcondes Ferraz Silva

Psicólogo Esportivo