Muito além dos treinos

Quando falamos em treinamento de triathlon, nos remetemos diretamente à preparação física e às adaptações fisiológicas do treinamento. Diversos artigos são escritos em relação a limiares, capacidade aeróbia, VO2, lactato, economia, potência e velocidade e, muitas vezes, atletas e técnicos se consideram satisfeitos quando conseguem controlar, ou no mínimo se planejar, em virtude destes fatores, ou do maior número deles. Mas independente do fato de atletas de triathlon terem suas capacidades competitivas diretamente relacionadas a estas características fisiológicas, será que apenas serão responsáveis pelo resultado?

E quando tentamos responder a esta pergunta nos deparamos com uma resposta tão óbvia na teoria, mas que na prática muitas vezes é negligenciada. E a resposta é Não. Todos conhecem algum atleta com um potencial fisiológico enorme, com um sistema de treinamento fantástico, com uma velocidade e resistência enorme, mas que acaba sempre tendo dificuldades em entregar o resultado. E para cada atleta existe um responsável, as condições, a adaptação, a fadiga, a cabeça ou alguma outra limitação. Mas o que todos eles têm em comum é a falta de atenção a algum dos aspectos do desenvolvimento esportivo.

Quando pensamos em um desenvolvimento global do atleta, ou do esportista precisamos entender um pouco a estrutura da performance como uma pirâmide, onde os níveis não são sucedidos em termos de importância, mas de complexidade dos sistemas, sendo o desenvolvimento de cada aspecto, fundamental para o nível que o sucede. Nesta pirâmide a base são os aspectos biológicos do atletas e em seguida os níveis serão o físico, o técnico, o tático, o psicológico e o espiritual.

Biológico

A base da performance são as características biológicas do sujeito. Neste nível entram toda a carga genética, e a expressão prática destas características. Elas são a base não porque determinam a capacidade dos atletas, mas porque serão o ponto de partida para todo o desenvolvimento do treinamento. Trabalho de força, velocidade ou resistência, frequência de passadas, estilo de natação, cadência no ciclismo, prevenção de lesões, alimentação e recuperação, tudo pode ser trabalhado, mas dependerá das necessidades e capacidades específicas de cada atleta para fazer sentido.

Físico

Este é o aspecto mais evidente na preparação e treinamento de triatletas e por este motivo não vou me concentrar tanto nele, mesmo porque, além de não possuir a competência necessária para falar dele, os respectivos colunistas desta revista já fazem um excelente trabalho a este respeito. Mas neste aspecto considero não apenas a questão do treinamento, mas também toda a parte nutricional, fundamental para o desenvolvimento físico, e a parte médica e de fisioterapia, fundamentais na prevenção e no tratamento de problemas relacionados ao treinamento.

Mas as dificuldades aparecem quando grande parte do treinamento se limita a estes dois aspectos, considerando como suficientes estes níveis para a prática da modalidade, o que acontece muitas vezes com atletas que treinam através de uma planilha, com o técnico a distância, ou no máximo agregando o próximo nível, quando há uma supervisão mais próxima.

Técnico

Por mais óbvio que nos pareça a necessidade de se trabalhar a parte técnica das modalidades praticadas, muitas vezes ela é realmente negligenciada por inúmeros atletas e treinadores. Esta necessidade fica evidente quando falamos em natação, cuja performance é mais diretamente ligada a questão técnica, e talvez seja por isso que muitos atletas se preocupem com isso quando nadam, mas quando falamos em corrida e ciclismo muitas vezes a resposta vem, dizendo que correr é natural ao ser humano e que andar de bicicleta, se aprende uma vez e nunca mais se esquece.

Sei também que , assim como na parte física, na parte técnica os colunistas do treinamento também tem nos informado com muito mais qualidade, mas quando falo da parte técnica gosto de me referir a outro aspecto envolvido. A necessidade de buscar conhecer aquilo que se está fazendo. Triathlon não é apenas fazer força, tentar ser mais rápido, suportar mais o sofrimento. É nadar, é pedalar e é correr. Tudo bem, é nadapedalacorre, mas cada uma das modalidades (específicas do triathlon) tem suas características e o atleta precisa se interessar em conhece-las. É preciso entender por que se nada de uma determinada forma, desenvolver a técnica do ciclismo, o comportamento na rua, na estrada e no pelotão, cuidar do equipamento, saber trocar o pneu e fazer a manutenção básica. Saber correr, educar a passada, não depender da “tecnologia” do tênis, saber controlar o pace sem um relógio ou GPS, saber ouvir o corpo e a mente sem usar um fone no ouvido toda vez que começa a treinar. Tudo isso tem a ver com a técnica do esporte e também é um degrau importante na busca pelo rendimento.

Tático:

Ok, o triathlon não é um jogo, onde a organização e a adaptação a situações específicas de posicionamento e ação de outros jogadores determinarão um planejamento específico e um padrão a ser seguido. Também não servirá de nada um grande planejamento de competição se o atleta não tiver as capacidades físicas necessárias para desempenhar. Mas se formos olhar a questão mais de perto, o que muda em uma modalidade como o triathlon?

Se falarmos em comportamento tático como a organização e a capacidade de adaptação a situações específicas, através da leitura das situações e da capacidade de tomada de decisões, o contexto irá mudar em relação a um jogo, mas o sistema aplicado será o mesmo. No triathlon o atleta precisa constantemente se adaptar ao ambiente em que compete (temperatura, condição de mar, vento, altimetria), adaptar sua capacidade física às exigências da prova (pace, ritmo, economia) e adaptar suas ações em relação às atitudes e capacidades dos adversários. Em cada uma dessas adaptações muitas decisões precisam ser tomadas, e quanto melhor a capacidade do atleta em toma-las, mais eficientes elas serão. Para isso o atleta precisa conhecer o ambiente, os adversários e acima de tudo a si mesmo. Quais são suas forças? Quais as deficiências? Qual a sua capacidade de se manter fiel a um plano original e qual a tendência a tomar atitudes impulsivas? Qual o momento de se abandonar o plano original e se adaptar a uma nova situação em virtude de uma condição de prova ou ação de um adversário? São perguntas que precisam ser consideradas em cada uma destas situações.

Desta forma o planejamento tático dependerá diretamente dos níveis anteriores, características biológicas, capacidades físicas e domínio técnico, e influenciará e será influenciado pelas capacidades psicológicas do sujeito, no próximo nível.

Psicológico:

O nível psicológico irá considerar a influência das sensações, emoções e pensamentos, nas ações e comportamentos dos atletas e a consequência destas, como feedback para eles. Isto é, tudo o que o atleta pensa e sente irá influenciar na maneira em que ele se comporta, na forma como ele treina, compete, se prepara, faz escolhas e toma decisões.

O desenvolvimento psicológico (ou a falta dele) pode ser um grande aliado dos atletas na conquista de resultados, mas também um grande obstáculo no caminho de seus objetivos. Não é raro encontrarmos atletas com capacidades físicas fantásticas, com desempenhos regulares em competições e atletas que constantemente se superam no momento da competição, conseguindo na sua força psicológica, obter o diferencial para seus adversários e limites.

E esta força psicológica, ou mental, deve ser desenvolvida também de forma integral, nas esferas pessoais, ambientais e em relação as habilidades psicológicas “competitivas”. Em relação a esfera pessoal, devemos considerar o atleta no seu ponto de vista humano, seus sentimentos, relações pessoais, dúvidas e inseguranças que influenciarão e serão influenciadas pela sua prática esportiva. Não existe um botão que liga a persona de atleta e desliga a de ser humano e se as coisas não vão bem fora do esporte, dificilmente ocorrerão bem dentro.

O ambiente, e seu consequente controle, também é fundamental para o desenvolvimento esportivo e competitivo. E no que diz respeito ao ambiente, me refiro não apenas ao local de treino e competição, mas a todos os elementos que compõem as relações entre o atleta e sua prática, como a relação com seus colegas de equipe, com seu técnico, com o tipo e a metodologia de treinos, o planejamento do calendário e competições, a comunicação e a organização de sua vida e seus treinos. Desta forma se torna possível proporcionar um ambiente mais produtivo, que favoreça o desenvolvimento de diversas habilidades psicológicas no atleta, como a motivação, a concentração e a confiança, sem que ele tenha que investir tanta energia neste processo.

Por fim o trabalho com as habilidades psicológicas, mais diretamente associado a psicologia do esporte, irá buscar desenvolver no atleta, habilidades competitivas, necessárias para um bom desempenho, como a motivação, a concentração, a confiança, a capacidade de controlar a ansiedade e o estresse, e a tomada de decisão. Estas habilidades tem a capacidade de influenciar mais diretamente os resultados do atleta e serão fundamentais em um processo de desenvolvimento integral.

Espiritual:

Talvez o nível que gere mais polêmica, ou seja mais incompreendido, também seja um dos mais básicos e esquecidos. Quando me refiro a um nível espiritual não me refiro a nenhuma questão religiosa, mas a capacidade de encontrar um sentido maior na atividade que se realiza que não simplesmente a conquista, o ego ou outro substituto material. Me refiro aquele sentimento de prazer e satisfação puramente por estar ali, sendo capaz de realizar tudo o que ama, da forma mais integra possível. Muito difícil de explicar talvez seja identificada em um momento de flow feeling, ou no estado também chamado de “in the zone”, talvez no momento em que levantamos a cabeça no topo de uma serra e nos maravilhamos com a paisagem, ou que nos sentimos felizes por estarmos próximos de pessoas importantes, que nos compreendem nestes sentimentos e com quem passamos horas treinando. Para cada pessoa será um momento e uma situação específica, mas que terá em comum o fato de desviar o sentido do resultado e da consequência e será capaz de conectar o atleta a algo com um sentido maior.

São inúmeros os aspectos que influenciam a performance, e ao olharmos para este modelo devemos refletir se realmente estamos comprometidos com o desenvolvimento esportivo de forma integral, se desenvolvemos uma postura ativa na descoberta de caminhos e soluções, na busca de objetivos e na superação de obstáculos. É cômodo encontrarmos uma desculpa na situação, a responsabilidade fora de nossas atitudes, e a esperança apenas em um novo método ou equipamento de ultima geração, mas é o que fazemos diariamente, a capacidade que temos de entender o nosso esporte, e suas mais diversas possibilidades, e a forma com que nos relacionamos com ele é que dará a medida de onde podemos realmente chegar.

Arthur Ferraz