Objetivos internos

É cada vez mais clara no esporte a necessidade de trabalharmos em função de objetivos específicos e bem determinados. Estes objetivos nos permitem assumir o controle do processo de treinamento, mantendo a motivação adequada, a direção correta e a concentração nas metas adequadas para o objetivo final. Neste processo determinamos tempos que queremos alcançar, vitórias ou posições que buscamos, numero de pontos, de acertos e de gols.

Neste processo de determinação de objetivos quanto mais específicos pudermos ser, melhor. É muito vago dizer que queremos ser melhores, ou que pretendemos dar o máximo. Não temos referência sobre o que ser melhor significa até que possamos realmente melhorar, não conseguimos saber se o máximo é realmente o máximo ou se, sob condições diferentes, poderíamos dar mais. Por isso, no esporte trabalha-se com informações concretas, com etapas específicas, e quanto melhor pudermos identificar estas metas, quanto mais reais e concretas elas forem para o atleta, maior o controle sobre seu desempenho.

E quando falamos de controle de desempenho, não podemos nos limitar ao resultado final do processo, vitória ou derrota, posição final, ou até o tempo final. Isto porque a competição é apenas uma parte do processo, uma vez que os atletas normalmente passam mais tempo treinando do que competindo. Quando determinamos os objetivos precisamos entender todo o processo, que leva até ele, encontrar as metas intermediárias que irão garantir a capacidade de chegar ao resultado final e as condições para que todo o processo possa ocorrer. Uma prova de 100m livre de natação, por exemplo, dependo dos tempos de 12,5, 25 e 50 metros que o atleta seja capaz de fazer, do tempo de reação na hora da largada, da qualidade técnica de saída e virada, do número de braçadas e da força aplicada em cada movimento, para citar apenas alguns destes aspectos. Quanto mais experiente for o atleta, mais referências ele será capaz de identificar e maior controle ele terá sobre cada uma delas. O resultado final será consequência da soma de todos estes aspectos e por isso a importância de metas e objetivos tão específicos.

Mas o que ocorre muitas vezes é que o atleta se perde na necessidade de tornar o controle cada vez mais concreto e não considera todo o aspecto subjetivo do desempenho, os fatores internos. Isto muitas vezes ocorre porque os treinadores estão focados no que podem ver e controlar, e estas referências, muitas vezes, são identificadas como tendo influência mais direta sobre o resultado do que os fatores subjetivos. Identificar este outro lado e ajudar o atleta a utilizá-lo a seu favor é uma grande contribuição que o psicólogo do esporte pode trazer ao atleta.

Os objetivos internos estão ligados a percepção, às sensações, emoções e pensamentos do atleta a respeito de suas ações e desempenhos. Muitas vezes eles estão ligados às condições através das quais as performances poderão ser alcançadas. Confiança, concentração, motivação, intensidade, determinação, satisfação, tolerância e persistência são alguns dos conceitos envolvidos nos objetivos internos. Através deles o atleta busca um controle não apenas sobre o resultado, mas sobre o sentido que este resultado terá para ele. Ele permite ao atleta identificar a presença e o desenvolvimento das condições e situações ideais de desempenho, mesmo antes de o resultado aparecer.

São estes os objetivos que permitem ao atleta identificar as qualidades e evoluções presentes em um desempenho ruim, assim como enxergar os problemas e dificuldades em um bom resultado. Eles permitem ao atleta se apropriar de si mesmo, antes de se apropriar de sua performance e a transformar uma competição externa, em um processo interno de superação pessoal.

O trabalho com objetivos internos é fundamental para o processo de treinamento de qualquer atleta, mas não é simples para quem não está habituado. Ele exige o desenvolvimento de uma percepção interna apurada, uma boa capacidade de discriminar sensações, emoções, pensamentos e estados pessoais, ao que muitos atletas não estão habituados. Mas o resultado também é muito produtivo. No momento em que o atleta se torna capaz de se libertar dos metros e dos segundos e passa a ter a si próprio como principal referência, ele realmente amplia seus horizontes e descobre possibilidades e capacidades que nunca pensou possuir.

Arthur Marcondes Ferraz Silva

Psicólogo Esportivo

aferraz@institutokellystefani.com.br