Oscar Pstorius: Cyber Doping ou Superação?

Com o início das olimpíadas se aproximando, uma das atrações que mais tem chamado a atenção é o sul-africano Oscar Pstorius.

Pstorius ou “Blade Runner” como tem sido chamado, é o primeiro atleta a participar de provas paraolímpicas e olímpicas no esporte mundial. Isto se deve ao fato de que faz uso de duas próteses de fibra de carbono que substituem suas pernas.

O “homem mais rápido do mundo sem pernas” conseguiu a liberação por parte do Tribunal de Arbitragem Desportiva (TAD) para a disputa dos jogos olímpicos de Pequim em 2008, por se considerar que suas próteses não lhe atribuiriam vantagens em relação aos outros corredores. No entanto, uma liminar da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) impediu a sua participação.

Em 2011, Pstorius já participara de provas dos 400 metros válidas pelo mundial de atletismo, alcançando as semi-finais com um toque de brilhantismo segundo as manchetes. Agora, em Londres, Pstorius novamente foi liberado pela Associação Internacional de Federações de Atletismo para competir, desde que conseguisse os índices exigidos para a prova.

Obviamente, o fato de um indivíduo sem as pernas chegar a condições de igualdade para com atletas que não têm qualquer deficiência é um feito que merece louvor. Todavia, há outras questões a serem analisadas e que nem sempre são levadas em consideração.

A primeira questão é o fato de que a ausência das pernas gera um menor peso para os membros inferiores. Este fato diminui as forças inerciais necessárias para vencer a resistência ao movimento, o que contribuiria para gerar uma relativa vantagem ao início da prova.

A segunda questão importante diz respeito à natureza das próteses. Ao se deformarem no contato com o solo, ocorre um processo de armazenamento de energia, que será devolvida em forma de propulsão. Este fato poderia também gerar vantagens para o atleta. A questão central é: o quanto de propulsão será gerada e se esta quantidade é proporcional àquela que o músculo humano pode gerar em condições anatomicamente normais.

Michael Johnson, detentor de 4 medalhas de outro na prova dos 400 metros diz acreditar que Pstorius obtém vantagens por conta do uso de próteses. Mas, o próprio Pstorius defende-se afirmando que utiliza próteses do mesmo tipo desde 1996, e que são largamente utilizadas há aproximadamente 20 anos.

Considerar que estamos diante de uma questão puramente de inclusão social é um erro, uma vez que o princípio de igualdade deve tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais.

O uso de aparatos de tecnologia para favorecer a performance esportiva tem sido chamado de “Cyber Doping”. Os maiôs da natação já haviam sido banidos por gerarem vantagens extrínsecas ao corpo, distorcendo a ideia de que o esporte dependeria apenas do alcance e superação dos limites do corpo.

Em Oscar Pstorius, um complexo e íntimo relacionamento entre os componentes anatômicos e mecânicos estão resultando em marcas e vitórias cada vez mais próximas daquelas conquistadas com pernas de carne e osso. O quanto cada parte está contribuindo para esses resultados é que precisa ser descoberto.

Uma investigação mais específica deve continuar a ser feita para se descobrir as reais condições de vantagem que uma prótese pode dar a um corredor. E se isto for comprovado, talvez as pernas já não sejam tão desejadas por alguns que buscam a vitória a qualquer preço.

Considerar que estamos diante de uma questão puramente de inclusão social é um erro, uma vez que o princípio de igualdade deve tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais.

Pedro Sampaio

Fisioterapeuta do Setor de biomecânica