Sob Pressão

Constantemente ouvimos falar sobre a influência da pressão no resultado competitivo de um atleta ou uma equipe, como ela influencia o desempenho e como dificulta a expressão da capacidade esportiva no momento da competição.  Mas se por um lado a pressão e sua influência são bem conhecidas, é muitas vezes a falta de compreensão sobre o que a determina é que acaba sendo a grande responsável por seu surgimento e manutenção.

É normal identificarmos um estado e sensação que chamamos de pressão, mas o que ela significa realmente? Um exemplo disso tive exatamente quando trabalhava com uma equipe de polo aquático e começamos a discutir a pressão que poderia atrapalhar a equipe em sua busca pelo título. Todos os atletas reconheciam a presença desta pressão, mas ninguém era capaz de determina-la. Acontece que é justamente este o trabalho da psicologia do esporte, não apenas aceitar a influência de fatores psicológicos no desempenho, mas o de compreendê-los para poder transformar um obstáculo em uma oportunidade.

O que fizemos então foi começar a identificar que tipo de dificuldades, problemas ou formas de pensar estariam contribuindo para a manutenção desta pressão. Entre os fatores levantados estavam o de terem vencido jogos de equipes fortes e não “poderem” perder mais destas equipes, o de não “poderem“ perder das equipes mais fracas, o de que iriam jogar na “casa” do adversário, onde este jogaria melhor com o apoio da torcida, a evolução da equipe durante o ano e o medo de “desperdiçar” todo o esforço e trabalho realizado durante o ano caso perdessem.

Estes exemplos demonstram bem a forma como a pressão se instala através da estruturação dos pensamentos e ideias sobre um determinado desafio, e como após esta estruturação eles acabam substituídos e ocultos apenas nas sensações de medo, ansiedade e insegurança. O que aconteceu nesta forma de pensar é que a imagem que foi criada pela equipe apresentava apenas uma saída, isto é, com a determinação de como as coisas deveriam acontecer e, principalmente, o que não poderia acontecer, os atletas começaram a ignorar realidades simples da competição e foram perdendo sua flexibilidade em encontrar soluções para as dificuldades. Suas capacidades tornaram-se então fonte de responsabilidade e peso e não mais fonte de confiança.

O trabalho neste momento depende da reestruturação deste cenário na tentativa de, através da compreensão deste pensamento, criar novas possibilidades de encarar o desafio, podendo enxergar múltiplas saídas para diferentes situações, sempre com base na confiança nas capacidades da equipe.

Na prática isto significa para de negar a possibilidade de perder, de jogar mal ou de que algo possa dar errado, pois estas fazem parte do esporte, e enquanto forem o foco principal limitarão o desempenho da equipe. Isto não significa deixar de querer ganhar, pelo contrário, sem o peso do “Não” fica muito mais fácil para os atletas focarem no que realmente desejam realizar. Sem a pressão, que acaba sendo uma obrigação do que “tem” que ser e no “como” deve ser, aparece a liberdade para criar e encontrar soluções e capacidades para os desafios da competição.

O que precisamos ter em mente é que a pressão é fruto de um conceito internalizado, criado pelo próprio atleta ou transferido de fora, que acaba determinando condições ou resultados, que acabam se dissociando a realidade competitiva.  E quanto mais buscarmos entender a forma como esta pressão se instala e se mantém, maior será a capacidade de criarmos novas e melhores possibilidades de enfrentarmos os desafios.

Arthur Marcondes Ferraz Silva

Psicólogo esportivo

aferraz@institutokellystefani.com.br