Você diz quem você É

Outro dia, ouvindo o rádio, me deparei com o anúncio de um circuito de corridas cujo slogan dizia: “O seu tempo diz quem você é”. O grande argumento do anúncio era o de que as provas do tal circuito tinham os percursos mais rápidos, o que permitiria que os atletas participantes alcançassem seus melhores tempos. Ao ouvi-lo em primeiro momento, o slogan me causou certo desconforto, então resolvi analisar mais de perto o que tal colocação significava e o porquê dela ser tão perigosa.

Sempre que a psicologia começa a falar de esporte, seu papel é o de identificar de forma mais específica, que esporte é este? Não apenas qual a modalidade, mas porque esta foi escolhida, qual a relação do praticante com a atividade, para que ela serve, o que ela desperta no sujeito e qual sua motivação para se iniciar e continuar a pratica-la.

Esta preocupação em determinar a real relação do praticante com a sua atividade se torna fundamental quando nos deparamos com argumentos como este do anúncio. Isto porque o esporte pode ter inúmeras funções dentro da vida de quem o pratica: prazer, educação, realização, saúde, interação social, superação e conquista. Ele pode ser tudo, mas será aquilo que fizermos dele. E precisamos ter cuidado com o que fazemos dele.

Precisamos ter cuidado para não confundir o Fazer com o Ser. O que mesmo para os atletas profissionais se torna perigoso, para um atleta amador, que não tem o esporte como principal função, pode ser um grande problema, pois começa a tornar cada treino, cada prova e cada tempo, em determinante na sensação de auto realização e capacidade do sujeito.

Este processo de substituição ocorre de uma forma lenta. O sujeito começa a praticar uma atividade como a corrida com objetivos e motivações simples. Perder peso, melhorar a saúde, praticar uma atividade prazerosa ou estar com amigos. A medida que os treinos evoluem, e junto com ele a condição física aumenta, começa um importante processo de auto percepção de capacidades, realização e conquista de objetivos, o que torna o praticante mais motivado, satisfeito e confiante. As competições também começam a ocupar um papel importante neste processo, pois tornam os objetivos iniciais, geralmente mais qualitativos e inespecíficos, em objetivos específicos e quantitativos. A evolução agora pode ser medida, acompanhada e registrada.

Mas o grande problema é quando estes números, marcas e resultados, começam a substituir a capacidade de percepção do praticante em relação a ele mesmo, a seu corpo e a sua evolução. E mais perigoso ainda, quando estes números se tornam um fim em si mesmo, e corrompem a função inicial da atividade física, se tornando fonte única da motivação. É neste momento que o praticante se torna aquilo que ele faz, dependendo sua autoestima de seus bons resultados, seu bem estar dos tempos alcançados no ultimo treino, e sua felicidade da colocação que alcança na prova.

E finalmente o seu tempo diz quem ele é

Fazer provas, tornar-se competitivo, traçar metas de superação, se dedicar com afinco e se cobrar para treinar e competir a cada dia melhor, não é e nunca será um problema em si. A questão será sempre a capacidade de separar as coisas, entender que dias bons e dias ruins existem, que os resultados, embora sejam consequência da preparação, são dependentes de inúmeros fatores e que a percepção de capacidade, realização e autoestima pode vir de diversas atividades fora do esporte, ou até dentro, mas de outras formas, mas qualitativas e pessoais. E esta forma diferente de perceber as coisas não vai tornar o atleta ou praticante menos competitivo. Muito pelo contrário, livre da obrigação de desempenhar bem sempre, e da ameaça pessoal que um resultado ruim pode significar, ele se torna ainda mais tranquilo, confiante e pronto para seus melhores resultados.

Arthur Ferraz

Psicólogo esportivo

aferraz@institutokellystefani.com.br